» » Alunos com deficiência e professores se adaptam em tempos de pandemia

Diariamente, cerca de 360 alunos e alunas com deficiência acompanham de suas casas as aulas virtuais ministradas pela Rede Municipal de Ensino de Camaçari. Emily Menezes do Espírito Santo, aluna do sexto ano do Ensino Fundamental II, matriculada no Centro Educacional Maria Quitéria, é uma delas. Em razão da surdez, diagnosticada aos três anos de vida, Emily, em suas aulas, tem o suporte diário de Ana Cristina Ribeiro, intérprete de libras.                             

Segundo a técnica em libras, superar a falta de interação social presencial tem sido uma das maiores dificuldades em sua prática pedagógica. Durante os dias úteis da semana, usualmente a partir das 9h, alunos e professores passam a ter na sala virtual seu ambiente de interação. “O aluno surdo compreende as intervenções do contexto educacional através do contato concreto”, explicou Ana Cristina. Na visão da educadora, estar fora do ambiente presencial é uma situação bastante delicada para eles.                                                            

                                         
Essa visão é parcialmente compartilhada por Emily. Por um lado, a estudante diz sentir falta da interação física com os colegas; porém, a experiência de utilizar o smartphone para estudar tem animado a aluna, que tem se adaptado bem ao ensino remoto.

Fátima Cardoso, responsável pela Coordenadoria de Inclusão Educacional, afirma que um dos maiores desafios será começar de onde pararam, em razão da Covid-19. “Recuperar esse tempo de distanciamento social será nosso principal desafio, dado que os educandos que ficaram distantes dos ambientes físicos tendem a apresentar alguma perda dentro do processo de atendimento no qual estavam inseridos”, ponderou.

A fim de superar tais dificuldades, a Secretaria da Educação (Seduc) vem contando com o trabalho especializado de 45 profissionais, entre 38 cuidadores, cinco brailistas e dois intérpretes de libras. Em conjunto, cabe a eles a responsabilidade de apoiar os comitês escolares em suas articulações com os educandos e seus familiares.

A atuação desses profissionais visa promover adaptações curriculares possíveis e necessárias, dentro do que institui a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) nº 9.394/96, e a Lei Municipal nº317/94, referente ao Plano Municipal da Educação.

A Resolução n.º 2, de 11 de setembro de 2001, da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE/CEB) define educação especial como “um processo educacional definido por uma proposta pedagógica que assegure recursos e serviços educacionais especiais, organizados institucionalmente para apoiar, complementar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento das potencialidades dos educandos que apresentam necessidades educacionais especiais, em todas as etapas e modalidades da educação básica.”

Com a emergência da pandemia e das legislações específicas dela decorrentes, a prefeitura de Camaçari, por meio da Seduc, publicou em 3 de setembro de 2020 a Instrução Normativa (IN) nº 002/2020, no Diário Oficial n.º 1495. As orientações ali dispostas regulamentam o regime especial de atividades remotas da rede municipal de ensino, inclusas as atividades pedagógicas do Atendimento Educacional Especializado (AEE).
A fim de executar tais políticas no município, desde abril a Seduc vem dando atenção diferenciada à Coordenadoria de Inclusão Educacional. Estruturada em quatro eixos – educação especial, educação do campo, educação quilombola e educação antirracista, constitui-se como núcleo responsável por elaborar e coordenar as diretrizes para a educação municipal nessas áreas, em consonância com as orientações do Ministério da Educação.

Esses quatro eixos agregam os professores especializados nas áreas de cada grupo de trabalho, cuja dinâmica é ordenada pelo trabalho de uma supervisão técnica. São esses coletivos que ajudam a pensar e a desenvolver o planejamento pedagógico e o relacionamento com a família.

Além desses grupos constituídos por professores, há órgãos como o Centro de Referência à Inclusão Escolar (Crie), que reúne especialistas com competências variadas que além de oferecer atendimento especializado aos estudantes, contribuem no fortalecimento dos cuidados e diálogos junto às famílias.

À Coordenadoria também cabe propor o estabelecimento de parcerias com instituições governamentais, não governamentais e do setor privado visando a ampliação no atendimento educacional especializado na rede pública municipal de ensino.

Uma das metas da Coordenadoria de Inclusão é fortalecer o atendimento da educação especial dentro da rede. Para tanto, de acordo com Fátima Cardoso, é necessário “potencializar as ações que já vinham sendo desenvolvidas, bem como planejar novas iniciativas, a partir das experiências que o órgão vem acumulando”, declarou.

Segundo a gestora, isso passa pelo fortalecimento e reconhecimento de diversas instituições, como o Crie; as escolas especializadas Pestalozzi; Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae); Especial de Camaçari, situada no Centro de Atenção Integral à Criança (Caic); o Centro de Apoio e Educação Inclusiva (CAEI), bem como de todas as unidades que recebem alunos com deficiência no município.

A intérprete de libras Ana Cristina Ribeiro, por exemplo, afirma que prática e disciplina constantes são necessárias à sua atuação. “Gradativamente necessitamos estar alinhados junto à coordenação e aos demais professores no apoio à adaptação das atividades diárias, bem como sugerir metodologias para o ensino do aluno surdo”, contextualizou.

Atualmente, dentro das 68 escolas da rede com alunos especiais, a deficiência intelectual é a mais recorrente, enquanto altas habilidades e superdotação é a que possui menor incidência, segundo relatório de matrícula da Seduc de alunos com deficiência emitido no segundo trimestre de 2021. Entre essas unidades de ensino, a Escola Municipal Caminho do Mar, situada na costa, é a que possui maior número de estudantes. Nela, do total dos 22 matriculados, 63% possuem deficiência intelectual.

Na visão da gestora da Coordenadoria de Inclusão Educacional, neste momento de pandemia a equipe vem se apropriando das oportunidades geradas pela tecnologia, a fim de garantir o atendimento aos alunos e suas famílias. “Estamos trabalhando para garantir a formação dos educadores, no sentido de favorecer que importantes atores no processo educacional possam desenvolver projetos pedagógicos inovadores diante dos desafios impostos pela Covid-19”, explicou.

A coordenadoria pretende realizar eventos mensais para promover a socialização de  experiências entre as escolas especializadas. Em junho, já foram promovidos dois encontros com essa finalidade. No dia 10 ocorreu um primeiro encontro remoto para trocar experiências sobre a oferta de ensino não presencial em escolas especializadas. No dia 16, a atenção foi para o trabalho dos cuidadores e intérpretes de libras durante a pandemia. Desse modo as unidades compartilham o trabalho que vêm desenvolvendo  com suas equipes técnicas, possibilitando aprendizado conjunto da rede.

A coordenadoria também planeja o estabelecimento de parcerias interinstitucionais. “Isso é importante para que consigamos ter uma rede de cooperação e assim desenvolvermos projetos mais ousados para continuarmos garantindo o direito à educação para toda a comunidade de Camaçari”, declarou a gestora Fátima Cardoso. Para isso, a instância pedagógica prevê fortalecer e ampliar a aproximação com a rede de proteção à criança e ao adolescente, de modo a continuar trabalhando para assegurar direitos que são legalmente constituídos a esses públicos.

Manter o alinhamento entre a legislação e as ações previstas dentro dos quatro eixos da Coordenadoria de Inclusão Educacional é uma das principais metas a serem atingidas. Para Fátima, “é necessário que a sociedade olhe a inclusão educacional num contexto social mais amplo, e assim podermos desafiar as tantas desigualdades sociais e consequentes dificuldades vivenciadas cotidianamente por grande parte de nossos alunos e suas famílias, principalmente as mais carentes, sem perder de vista suas lutas e estratégias de sobrevivência”, reconheceu.

Ana Cristina, especialista em libras, tem como maior motivação profissional a possibilidade de diminuir a exclusão social e educacional do aluno surdo, dentro do ambiente de aprendizagem. “Busco conscientizar esse estudante de suas potencialidades de aprender diante do processo de tradução de conteúdo do seu currículo escolar”, admitiu.

Sem ainda muita noção dos desafios que deverá enfrentar em sua vida futura, Emily sonha. A estudante, quando questionada sobre quem, ou o quê, ela queria ser quando crescer, disse com precisão e objetividade: médica veterinária. “Quero cuidar de animais”, justificou.

No presente, sua mãe, Liliana do Espírito Santo, que a acompanha de perto, só tem um desejo: “espero que eles consigam ajudar minha filha a aprender”, concluiu. Enquanto isso, a futura médica vai treinando suas habilidades com os cuidados que dedica à cadelinha da família, Belinha.

Foto: Josué Silva/ Tiago Pacheco

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Coordenadoria de Jornalismo e Imprensa
Diretoria de Comunicação - Prefeitura de Camaçari

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