» » Camaçarienses que inspiram: Mestre Ismael

Diz-se que, aos nativos de sagitário, projetos de longo prazo são alvos de esmero e muita entrega. Tal assertiva se confirma quando se observa a trajetória de Ismael dos Reis Filho, o Mestre Ismael, líder do Grupo de Capoeira Inclusiva (GCI). Genuíno bem imaterial de Camaçari, a agremiação, há 15 anos, dedica-se ao trabalho de incluir Pessoas com Deficiência (PcD) na prática esportiva.

Foi adotado por esse chão por meio dos braços da saudosa Laurita, professora da então Escola Santa Laura, hoje, Escola Municipal Professora Laurita Souza Ribeiro. A educadora foi a primeira a convidá-lo a pisar na terra da “árvore que chora”. Trazendo a alegria que habita em seu espírito desde a época em que se reconhece enquanto gameta, expressão usada por ele, Mestre Ismael foi adentrando na capoeira não porque queria lutar, ou coisa que o valha. “Eu queria mesmo era me divertir”, declarou.


“ ‘Ah, você só vai acompanhar a gente se aprender a sambar’, e lá ia eu aprender o samba de roda”, esclareceu o mestre. Numa outra ocasião, faltou quem dançasse para um orixá, e lá ia o mestre aprender a dançar. “Tudo isso pra poder viajar”, admitiu. “Fui começando a gostar da capoeira por causa das viagens. Não fui porque eu era valente, era medroso como quê. O que eu queria mesmo era me divertir! E nessa diversão, a história pegou”, reconheceu.
O GCI foi criado em 2006, passados 23 anos que Ismael adotara Camaçari como “seu lugar”. À época, um episódio evidenciaria ao mestre qual era o seu propósito de vida. Numa escola particular, na ocasião em que ministrava prática com grupo de regulares (pessoas sem deficiência), uma garota PcD passou pelo portão do espaço no qual estavam. Ao perceber que a menina babava continuamente, os meninos passaram a fazer algazarra com isso. Era o atual bullying, com o qual o mestre Ismael provou ali, que para ele a inclusão era coisa muito séria. “Nessa hora eu parei tudo e passei a fazer uma atividade lúdica, através da qual eu consegui comprovar que se eles mantivessem a boca aberta, igual à da menina, eles também estariam babando após um tempo”, disse o mestre. E foi o que aconteceu.

Decorrido intervalo, ouviu dos envolvidos: “É, professor, ficamos de boca aberta e a gente realmente babou! ”. Foi a hora em que o educador explicou: “é por isso que ela está babando. Ela tem a limitação física dela”, relatou. A partir dali, passou a promover visitas mútuas de grupos de PcD a grupos de pessoas regulares, e vice-versa. Assim, a ideia do GCI foi amadurecendo.

No ambiente da capoeira, a prática se diferencia mediante o tipo que se pratica: se angola, ou regional. A primeira e mais antiga, a capoeira angola, costuma ter movimentos predominantemente rasteiros, com ritmo de execução mais lento. A regional, por sua vez, é marcada por saltos e mais acelerado. Para o Mestre Ismael, haveria um terceiro tipo. “O meu grupo sempre foi esse: o da capoeira inclusiva”, declarou.

O grupo tem como pressupostos a cooperação, a colaboração e a união. Para ele, a cooperação diz respeito a um ambiente que promova a interação e integração entre as pessoas. A colaboração refere-se à relação entre os membros do grupo, que deve ser pautada pela disposição constante de ouvir o que o outro tem a dizer, respeitar ideais diferentes, e tomar decisões sempre em conjunto. Com a prática dessas duas primeiras premissas, alcança-se o terceiro pressuposto, a união, que é a consciência do grupo enquanto um corpo único, fruto da articulação entre aqueles que o compõem.

Mestre Ismael nasceu em 18 de dezembro de 1963, na cidade de Santo Antônio de Jesus. Teve sua infância na Península de Itapagipe, em Salvador. Reconhece-se como fruto de tantos que constituem a sua história, como a família de 36 irmãos (dos quais 17 dos mesmos pais); de tios; da madrinha, que conforme relata, bem o criou e educou; da professora Laurita; e do atual coordenador de educação física da APAE Camaçari, professor Silvio Roberto, primeiro a colocá-lo para desenvolver o trabalho bem-sucedido com PcDs, já que em sua primeira experiência ainda não possuía conhecimento especializado.

No rol daqueles que contribuíram com quem ele se tornou, ele pontua que o Mestre Petróleo tem lugar de honra, pois foi seu mentor e responsável pela sua conversão de angoleiro aos cordões da capoeira regional, hoje inclusiva, pelas mãos de um camaçariense que inspira, chamado Ismael Filho.

Camaçarienses que inspiram é uma série especial criada em comemoração aos 263 anos de Camaçari, que segue até o final de setembro. Ao longo dela, serão produzidos textos com um pouco da história de cidadãos que são verdadeiras riquezas humanas, cujo valor para o município reflete-se em seus feitos e histórias. Mestre Ismael é a segunda personalidade retratada pelo projeto.

Foto: Josué Silva

Agência de Notícias
Coordenadoria de Jornalismo e Imprensa
Diretoria de Comunicação - Prefeitura de Camaçari

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